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Conto: Zoltar

- Que chatice isso!

            - Por que?

            - Ah, pai, olha só quanta porcaria! Nem a pau que eu vou ir nesses brinquedos!

            Otávio comprava duas entradas no guichê enquanto Mateus fazia cara de enojado ao passar os olhos pelas atrações do grande Parque de Diversões dos Irmãos Kazimov. Diziam que aquela seria a última turnê do grupo itinerante. Estavam falidos e se seguravam no vermelho há dois anos.

            Ninguém mais se interessava pelos pequenos parques de diversões.

            - Cara, isso aqui sim que é parque de diversões de verdade! Não aquele monte de baboseiras da Disney. – Disse, de posse das entradas.

            O garoto riu.

            - Tu não tá falando sério, né? Tipo, só porque tu teve um ataque de saudade do teu tempo de criança eu tenho que me ferrar junto?

            Eles cruzaram o pórtico que dava para a entrada do parque. Um grande portão quadrado com desenhos dos próprios irmãos Kazimov (dois russos vestidos a caráter) em posição da dança dos cossacos.

            Mateus olhou para as imagens dos cossacos e azedou a expressão.

            - Tu ainda vai me agradecer. – Otávio falou abrindo um sorriso. – Quer pipoca?

            O garoto fez que não.

            Caminhavam pelo cascalho espalhado sobre o chão de terra do terreno baldio onde o parque havia sido erguido para aquele mês de atrações. Era possível identificar que – assim como os grandes parques mais famosos – o Kazimov era divido em áreas de interesse comuns.

            Era possível dividir o parque em quatro sessões: a zona das crianças onde o carrossel, a roda-gigante e um passeio de trenzinho eram as principais atrações. A seguir, vinha o que Mateus entendeu como a parte “radical” do parque. Montanha russa, barco Viking e um outro brinquedo que dava piruetas e deixava as pessoas penduradas de cabeça para baixo. Uma terceira ala, uma espécie de “zona neutra”, era ocupada pelo carro-choque e algumas barraquinhas que vendiam tranqueiras, algodão-doce, pipoca e cachorro-quente. Isso tudo junto a outras barraquinhas onde havia o tiro ao alvo (onde quem acertasse, ganhava prêmios como ursos e coelhos de pelúcia) e um círculo cheio de garrafas onde o desafio era atirar argolas e fazer com que elas caíssem exatamente no aro das garrafas.

            A última parte do parque era para ser a assustadora. O trem-fantasma, a tenda com o show de horrores da mulher-macaco e um pequeno espaço para algumas outras bizarrices.

            - Pai... Sério... Isso aqui é muito palha! Vamos embora?

            - Deixa de ser besta, guri! Só porque não tem aquelas palhaçadas de 3D ou o diabo a quatro não significa que a gente não pode se divertir. Isso aqui é um parque de verdade e não esses monstros corporativos tecnológicos feitos só pra sugar o dinheiro de pais otários que acham que se os filhos não forem pra Disney quando completarem quinze anos de idade eles são uns fracassados.

            - Tá... Me poupa desse teu discurso contra o avanço da modernidade e bláblá. 

            - Mas é verdade! Hoje em dia a gurizada não dá mais bola pras coisas simples da vida. Vocês só ficam grudados naquelas merdas de computadores e smartphones... Todo mundo vive num mundo virtual que só existe nas cabeças de vocês.

            - Tá pai, deixa o discurso de lado. O que tu quer fazer antes? – Ele franziu o cenho.

            - Opa, finalmente uma atitude positiva! – Otávio sorriu.

            - Quanto antes a gente for nesses brinquedos, antes a gente vai embora daqui!

            Começaram pelo barco Viking e depois foram a Montanha-russa.

Otávio podia jurar que na saída do segundo brinquedo o filho já parecia mais relaxado e até apresentava um certo brilho no olhar. O divórcio não havia sido fácil para ninguém e o pior ainda estava por vir. A competição entre os pais pela atenção do único filho rapidamente se transformara em uma guerra em busca de quem conseguisse receber mais amor.

            Vitória usava o dinheiro de família para comprar tudo o que o filho pedia. Usava o dinheiro para bancar a tal viagem para a Disney e prometera ao filho um carro quando ele completasse seus dezoito anos.

            Otávio não tinha dinheiro de família. Mal tinha o seu próprio, mas esperava compensar sendo um pai presente. E mais, queria ensinar ao filho que havia mais na vida do que apenas dinheiro. Era uma batalha desigual. Uma que ele estava perdendo de longe e que por mais que acreditasse em suas convicções, também sabia que não possuía os meios para competir em igualdade.

            - Tá, e agora?

            - Carro-choque! Que tal?

            Mateus soltou o ar e começou a caminhar na direção do brinquedo.

            Otávio o seguiu. Por mais que o garoto insistisse naquele teatro de adolescente “rebelde”, ele podia ver que o filho estava se divertindo.

 

...

            Eles saíram da pista do carro-choque e Otávio se ofereceu para ir buscar um lanche. Mateus escorou-se em um dos pilares do brinquedo e aguardou. Quando esperava escutar a voz do pai lhe chamando foi surpreendido por um canto feminino doce e aveludado.

            - Mateus?

            Ele olhou para o lado e reconheceu Camila e Aninha, colegas de classe.

            - Oi... – Falou, meio envergonhado.

            - Não sabia que tu curtia parque de diversões? – Camila falou e sorriu para ele.

            O primeiro pensamento que veio à cabeça dele foi de que o pai logo estaria de volta com os lanches e iria estragar tudo. Elas iam rir do “gurizinho” que estava no parque com o “papai” e todos os seus sonhos dourados com Camila seriam levados embora, com tons de crueldade.

            - Eu... – Ele avistou Otávio caminhando em sua direção.

            Em um momento de enorme presença de espirito, Otávio deu a volta e passou a se afastar do pequeno grupo de adolescentes.

            - Eu gosto, tipo, claro que não é que nem os parques dos Estados Unidos... Mas, é divertido! – Falou, agora cheio de confiança.

            - E tu veio sozinho? – Perguntou Aninha.

            - Vim... Meu pai ficou de me dar carona mais tarde.

            As meninas olharam uma para a outra com ares de aprovação.

            - E vocês?

            - Ai, a gente veio com a mãe e a irmãzinha da Aninha... – Camila falou e riu.

            - Sim... Um saco! – A amiga completou.

            - Masss... Agora a gente te encontrou! – Camila falou e eles riram.

            - Isso ae! E então? Qual brinquedo que a gente vai ir?

            - Que tal o trem-fantasma? – Camila emendou junto a um sorriso maroto.

            Mateus concordou. Olhou para o pai sem que as meninas percebessem. Ele estava perto das barracas de tiro ao alvo e deu uma piscadela para o filho. Naquele momento Otávio se sentiu como o pai mais fodão da cidade. Quase como se fosse da turma do filho e isso, ah, isso dinheiro nenhum podia comprar.

            O garoto entendeu o recado: “vai te divertir com tuas amigas. Não vou atrapalhar.”

            Pela primeira vez, desde o divórcio, ele sentiu orgulho do pai e piscou para ele de volta.

            - Vamos? – Falou.

            - Vão vocês dois. Eu vou lá com a minha mãe ver se a minha irmã não tá sendo muito mala, depois a gente se encontra. – Aninha disse e lançou um olhar cheio de malícia para a amiga.

            Durante o passeio entre o cemitério e monstros e esqueletos de papelão, morcegos de plástico e cenários de doer de tão patéticos o que valia era o escuro.

            Camila até fingiu estar com medo para dar um motivo para que ele segurasse sua mão. No meio do passeio, o tão esperado beijo. Para Mateus era o seu primeiro beijo. O fato de ter sido com Camila o deixou ainda mais feliz, pois já era apaixonado por ela desde o primário. Tantas noites que ele sonhou com aquele momento e agora, enfim, ele a tinha deitada em seu ombro.

Mãos dadas, corações adolescentes batendo forte.

            O tempo do brinquedo acabou e eles saíram de mãos dadas. Aninha aguardava na saída, acompanhada de sua mãe e irmã mais nova.

            - Desculpa Mila, mas minha mãe tem que ir...

            - Tudo bem. – Ela tirou um papel de sua bolsa e escreveu alguns números.

            Entregou o papel a Mateus e lhe deu um beijo na bochecha.

            - Liga pra mim?

            - Claro!

            A mãe e as meninas se afastaram dali e ele apenas ouviu alguns risinhos faceiros e a voz da mãe de Aninha dizendo: “Ai que bonitinhos...” um pouco mais alto do que talvez desejasse.

            Mateus permanecia nas nuvens quando uma mão pousou sobre seu ombro.

            - Não falei que tu ia me agradecer?

            Otávio sorria para ele quando o garoto se virou.

            - Valeu pai! Mas, como é que tu te deu conta... Tipo, como tu sabia que eu queria que tu desse a volta e tal?

            - Pode parecer absurdo pra ti filhão... Mas eu também já fui um adolescente.

            Os dois riram a valer.

            - Bom, vamos comemorar! Que tal o show da mulher-macaco? – Mateus falou, agora com uma empolgação que trouxe um brilho aos olhos do pai.

            - Boa! Só me espera que eu tenho que ir no banheiro... Cinco minutinhos. Já volto, ok?

            - Beleza!

 

...

            Mateus virou-se para a tenda com o grande anúncio que dizia: Venha ver Monga! A mulher-macaco! Riu sozinho. Lembrou-se dos lábios macios e aveludados de Camila.

            Enquanto ainda passeava por suas lembranças recentes ele viu uma pequena barraca ao lado do show da Monga.

            Uma barraca que lembrava uma espécie de cabine telefônica onde, dentro, havia um boneco animado com uma barbicha e cavanhaque comprido. Vestia um turbante branco e uma roupa toda dourada. A sua frente, a mão de plástico ficava acima de uma bola de cristal.

            Um letreiro acima da máquina anunciava: Zoltar, e abaixo a palavra em inglês Speak.

            - Será que é uma daquelas máquinas videntes? – Mateus falou sozinho.

            Observou um casal que estava em frente a máquina. Acompanhou a rotina de Zoltar. Primeiro o boneco fazia um pequeno teatro e então desejava diversão para as pessoas e pedia que elas voltassem para obter mais sabedoria. Ao final, um pequeno cartão saía por uma fresta e lá estava a sorte reservada para as pessoas que buscavam o conhecimento de Zoltar.

            Mateus acompanhou mais uma menina que colocou uma moeda na máquina e mais uma vez, viu se repetir a mesma rotina.

            Quando a menina saiu, saltitando, segurando seu cartão ele se aproximou e encarou os olhos de cera de Zoltar. Mesmo sendo um brinquedo, ele tinha que admitir que era bem feito. Aqueles olhos pareciam, de alguma forma, vivos.

Pareciam acompanhar seu olhar.

            A curiosidade tomou conta e ele tirou do bolso uma moeda de um Real. Será que o futuro reservava mais e mais beijos apaixonados com Camila?

            Assim que empurrou a moeda para dentro da máquina, Zoltar mexeu a cabeça e os grandes olhos azuis. Sua mão começou a fazer movimentos sobre a bola de cristal e uma música de suspense acompanhou as palavras do vidente.

           

            Venha...Venha mais perto e ouça o que Zoltar tem a lhe dizer... Porque se eu lhe digo é porque é verdade... A menor das boas ações é melhor do que a maior das intenções... Acredite em mim, O Grande Zoltar... Entregue a mim o seu tesouro e deixe-me lhe dizer mais... Aqui está o meu conselho, garoto: Relaxe... E aproveite o seu dia, vá, se divirta! Afinal você só vive uma vez...

 

            Mateus sorria para aquela tentativa animada de provocar o suspense quando deu um para trás. Os olhos de Zoltar se tornaram vermelhos e antes que o cartão com a sorte do dia saísse pela fresta o boneco falou:

           

            Não se preocupe, rapaz... Prometo que será rápido...

 

            Todas as luzes se apagaram e Zoltar fechou os olhos e parou todos os movimentos movidos por engrenagens soltando um pffffff enquanto desligava. 

            O cartão escorregou pela fresta e Mateus o pegou. Leu uma vez a única frase que estava escrita e sentiu seu sangue gelar. Leu pela segunda vez e não pode acreditar. Ele olhou para a máquina e então novamente para o cartão.

 

Você irá morrer hoje!”

 

...

            Otávio chegou naquele exato momento. Encontrou o filho branco como uma vela. Segurava um cartão na mão esquerda e tinha um olhar aterrorizado voltado para a máquina vidente Zoltar.

            - Que foi guri? Tá passando mal?

            - Pai... Ele disse que eu vou morrer! – Falou, apavorado.

            - E tu acreditou? Mateus, isso é só uma brincadeira...

            - Não... Não é brincadeira. Alguma coisa não tá certa! Eu vi esse brinquedo funcionar com outras pessoas e comigo foi... Foi diferente! Olha o cartão! – Ele alcançou o papel com a sentença dada por Zoltar para Otávio.

            - Peraí, deixa eu colocar uma moeda aí e vamos resolver essa história.

            - Não! E se ele te disser a mesma coisa?

            - Eu quebro essa merda em três pedaços! – Otávio riu.

            - Pai! É sério... Eu tô com medo...

            Otávio percebeu então que o filho falava sério.

Puxou o garoto pelo braço e caminhou na direção do trailer da gerência do parque. Os dois bateram à porta e foram recepcionados por um homem que se dizia responsável pelo parque.

             A situação foi explicada e o homem gordo que vestia uma camisa polo com o logotipo do parque e uma calça jeans os acompanhou até a máquina Zoltar.

            Repetiram o ritual do brinquedo três vezes e nenhuma anomalia foi percebida.

            - Isso deve ter sido alguma sacanagem de algum piá de merda! – Falou o homem gordo.

            - Como assim? – Otávio perguntou.

            - Essa geringonça – ele apontou para Zoltar – tem no banco de dados um total de 16 sortes faladas e 23 cartões escritos. Alguém pode ter acessado o banco de dados e colocou essa porcaria e teu filho recebeu por acidente. Sabe, é até bom que aconteceu isso porque fazia tempo que eu queria me livrar dessa porra e agora eu tenho motivo.

            - E porquê?

            - Porque isso custou uma fortuna e só dá prejuízo. Além do que, é uma merda pra carregar pra lá e pra cá... Amanhã mesmo vou dar um jeito de botar a venda. Talvez algum outro trouxa queira comprar... Olha, peço desculpas pelo incidente. – O homem se ofereceu para devolver o dinheiro da entrada do parque, porém Otávio não aceitou.

            O homem gordo se desculpou mais uma vez, girou nos calcanhares e caminhou de volta para seu trailer.

            - Pai... – Mateus continuava petrificado.

            - Deixa pra mim! – Otávio colocou uma nova moeda e a máquina ligou suas luzes mais uma vez.

            Zoltar começou a falar e Otávio o interrompeu, falando ao mesmo tempo.

            - Olha aqui sua máquina de merda. Tu não vai fazer mal nenhum ao meu filho, eu não vou deixar! Porque tu não te mete com alguém do teu tamanho, hein?

            - Pai, isso é ridículo.

            Zoltar continuava a falar.

            - Quero ver! Te mete comigo ao invés de ameaçar o meu guri, que tal?

            O brinquedo terminou o seu programa habitual e um cartão dourado escapou pela fresta.

           

“Se você não possui poucos arrependimentos em sua vida, parabéns... Siga amando e cuidando daqueles que você ama, pois ao oferecer amor, amor é que você recebera em retorno de seus entes queridos...”

 

            - Acho que o gerente – Otávio apontou com o queixo – tinha razão... Algum bostinha deve ter metido aquele cartão entre os outros só pra assustar alguém. Vem, vamos pra casa. Combinei com a tua mãe que ia te deixar lá antes das seis.

            Dentro do carro estacionado em frente à casa de sua ex, Otávio despedia-se do filho.

            - Não te preocupa viu. Aquilo foi só uma besteira... E, me conta uma coisa, aquela guria bonita te deu o telefone dela? – Ele sorriu.

            - Aham... – Mateus abriu um sorriso de volta.

            - Boa guri! Não vai bancar o gostosão, liga pra ela, tá bom?

            - Hoje?

            - Não, espera até amanhã. – Ele piscou.

            - Valeu pai! Tu é o melhor!

 

...

            O Parque Irmãos Kazimov apagava suas luzes enquanto dois funcionários recolhiam alguns dos brinquedos e dava uma última geral. Um deles permaneceu parado em frente a uma cabine de vidro.

            - Ô... Que foi meu? – Falou o outro.

            - Estranho cara...

            - O que é estranho?

            - Esse brinquedo... O tal Zoltar.

            - Que que tem?

            - Fui desligar da tomada pra levar pra dentro do trailer... Só que o treco já tava desligado.

            - Como assim?

            - É isso que tô te falando... O cabo de força nem foi tirado de dentro da máquina.

            - Tá dizendo que o brinquedo passou o dia inteiro desligado?

            - É o que parece...

            O funcionário carregou a pesada máquina para dentro do trailer onde os brinquedos menores ficavam guardados até o dia seguinte e o deixou num canto.

 

...

Em sua cama, Mateus lembrava mais uma vez do beijo, das mãos dadas e do sorriso de Camila. A vida parecia ter ganhado um colorido novo após aquele dia no parque. Colocou o papel com o telefone de Camila dentro da gaveta do criado mudo.

            Decidira seguir o conselho do seu novo herói e ligar para a menina dos seus sonhos apenas no dia seguinte.

            Ele deitou e adormeceu quase que automaticamente.

            Em seu apartamento, Otávio apreciava uma cerveja enquanto assistia uma de suas séries favoritas na televisão.

 

...

            Nos fundos do trailer do Parque dos Irmãos Kazimov, coberto por um pano encardido, Zoltar ligou suas luzes. O boneco mexeu a cabeça e passou a mão por cima da bola de cristal.

Seus olhos ficaram vermelhos e o boneco sorriu.

            Não muito longe dali, Otávio sentiu uma dor intensa e lacerante percorrer a extensão de suas costas e concentrar-se em seu braço esquerdo.

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